Pobreza
Maio 23, 2008
Na sequência da entrevista do coordenador do estudo “Um Olhar Sobre a Pobreza”, Alfredo Bruto da Costa, ao jornal “O Público” – 23.05.2008
Abri à pouco tempo uma pequena empresa, trabalhava sozinho, era contabilista, vendedor, homem de entregas e empregado de armazém. Pensei em arranjar alguém para me ajudar. Um comercial, que fosse visitar alguns clientes e fizesse as suas entregas, como eu vinha a fazer, até então.
Encontrei uma pessoa que conheço à muito e estava desempregada, fiz-lhe então a proposta. O salário era ao principio baixo e por objectivos, dado que eu ganho pouco mais do que o salário minimo, 500€, e ainda não posso pagar como gostaria. Ao fim de dois meses essa pessoa desapareceu, não disse mais nada e deixou de atender o telefone.
Pus um anúncio na internet, recebi respostas e currículos. Fiz algumas entrevistas, e aí percebi coisas que nunca pensei serem reais.
Explicava a situação da empresa (inicio, pouco dinheiro, muita vontade) e quase todos me torciam o nariz, uns perguntavam se também tinham de fazer as entregas (é uma chatice), ou se também tinham de abrir novos clientes (achava que tinha escrito comercial no anúncio, se calhar esqueci-me…).
Mas havia uma pergunta que todos me faziam, com um ar desolado:
“Fixo é só isso?”
Realmente o salário fixo é pouco. Mas as comissões são boas. A trabalhar com algum esforço e vontade, tinha calculado uma média relativamente fácil de 600€ mensais.
Concluo daqui, que ou tive muito azar nos currículos que recebi, ou que ninguém quer depender do seu trabalho. E isto é Pobre.
A pobreza em muitos casos era evitada se não estivesse entranhada no espírito dos pobres.