A minha Joana vai às compras
Junho 2, 2008
A minha Joana vai às compras todos os dias de manhã. É o seu tempo de lazer. Chama-lhe “ir à rua”.
Chega a casa da família que a acolhe como entidade patronal, pousa os óculos de sol, tira o relógio e vê a lista de coisas a fazer. Arruma a cozinha do pequeno almoço, telefona para a Dina (filha) para saber se está tudo bem, depois liga à Lina (costureira) para saber como vão as coisas com o Augusto e sai, mesmo a tempo de regressar para a “tertúlia côr-de-rosa”. Se estiver alguém em casa antes ainda se despede: “Vou à rua”.
O percurso varia conforme os dias, às segundas vai ao supermercado Arco-Íris, às terças vai ao peixe, às quartas ao talho e quando o rei faz anos até vai ao Continente.
Suponho que para o leitor, até ao momento, nada pareça anormal, ou especialmente interessante. E realmente talvez nada o seja. Mas continuemos:
A minha Joana tem muita facilidade em fazer amigos. Ao entrar num qualquer establecimento comercial a probabilidade da minha Joana fazer um amigo é enorme. “Ir à rua” é, para a minha Joana, parte importante da sua vida social.
Na peixaria o sr. Correia gosta tanto da minha Joana que, se o peixe estiver “moído”, troca-lho, mesmo depois de cozinhado e em parte comido.
No supermercado Arco-Íris vêm-lhe trazer as compras a casa, o que faz com que a minha Joana, em vez de se deslocar, faça vários telefonemas diários, com pedidos que são entregues poucos minutos depois. Assim não tem que “ir à rua” e pode despachar outros serviços”.
“Dois pacotes de manteiga e um melão, escolhido pela sra. Alcina, bem madurinho.”
No talho não sei bem o que se passa, mas em compensação lembro-me da Lola.
A Lola era dona de uma loja de lingerie/roupa interior, que havia no edifício Silva Couto.
Não sei o que a minha Joana tanto fazia numa loja lingerie, dado que alega não gostar de sexo, mas sei que a Lola era uma infeliz.
A loja estava sempre perto da falência, o marido metia-se no álcool e há quem diga, andava enrolado com outras. A Lola tinha também dois filhos, o Pedro, mais velho, era preguiçoso e andava sempre atrás do mulherio.
“Qualquer dia uma ainda aperece prenha”, dizia a minha Joana.
E não é que apareceu mesmo! O Pedro teve que deixar os estudos e ir trabalhar, acho que foi para empregado de armazém. Não casou, parece que já nem gostava dela!
“A Lola está tão desiludida com o Pedro, mas também dá-lhe mimo a mais…”
O filho mais novo da Lola – não me lembro do nome – gostava de computadores e era estudioso.
“Também coitado, é tão feínho, que as raparigas nem lhe chegam perto.”
Inscreveu-se na escola profissional e parecia ter o mundo à sua frente, mas lá desbotou, arranjou uma namorada que o levou para a má vida.
“Coitada da Lola! Ele há gente que tem azar na vida.”
A loja acabou por fechar, mas muito depois do anunciado. Não sei o que foi feito da Lola, nem de niguém da sua família, nem nunca os conheci. Desde que a loja fechou a minha Joana deixou de saber da Lola. Parece que nunca mais a viu.
Mas uma coisa sei, acerca da Lola, é que “era tão boa rapariga”. Disse-mo um dia a minha Joana.
A minha Joana – nº2
Maio 26, 2008
A minha Joana é baixinha e de formas arredondadas, mas com as ancas bem a direito.
Para algumas pessoas ela não se chama Joana, é a São (diz-se Som). Eu não conheço essas pessoas, nem a Som, só conheço a minha Joana.
Diz que casou muito nova e não queria casar. Nem gostava dele e mal o conhecia. Foi obrigada pela mãe, ou melhor, pela madrinha, que é madrasta, mas a quem, quando o dia se põe bonito, chama de mãe.
Acho que a minha Joana nem conheceu a mãe, ou conheceu mal. O pai era um marinheiro de muitos portos. Diz que era rico, ganhava muito dinheiro nos navios e em negócios que fazia lá para as Américas, mas a minha Joana nunca viu nem um tostão.
A mãe da mãe, a avô, também parece que era rica, mas não era de dinheiro, era de terras, lá para os lados do Candal. A minha Joana também parece que nunca teve terra nenhuma, que não estivesse dentro de um vaso.
A madrinha fazia o que podia para criar a minha Joana mas, às vezes, como não era filha dela, tratava-a “abaixo de cão”. Diz a minha Joana que por isso pensava a mãe de duas maneiras, uma boa e uma má. A culpa era dela, da mãe ou da madrinha, conforme o dia.
O padrinho gostava do jogo e a mulher tinha que lhe esconder o dinheiro. Acontece que uma vez ele tinha perdido todas as poupanças numas apostas. Ninguém sabe em que apostou. Diz-se lá pela terra que foi no bingo.
O padrinho já morreu e a madrinha também, mas durou mais e até deixou algumas poupanças. A minha Joana apareceu-me lá em casa, com o extracto do banco, de uma conta em que já ninguém mexia há mais de 20 anos e pediu-me para lhe explicar tudo. Queria saber quais eram os movimentos do padrinho, para saber ao certo quanto ele tinha gasto no jogo. Assim ficou a saber quanto poderia ter tido, se o Padrinho não se tivesse metido nessa bodega.
Por isso a minha Joana não gosta nada de vícios. Já nem vê novelas e fica muito aborrecida quando o marido vai ao café em frente, porque café ou cerveja é tudo vício. Para evitar estas idas, a minha Joana pediu ao filho para pôr Sportv lá em casa, assim o pai sempre via lá a bola e até podia estar sentado no sofá.
Parece que o marido da minha Joana não acha lá muito divertido ver futebol em casa. Talvez não goste lá muito do sofá, que a minha Joana escolheu e até foi bem caro. É dos bons.
A minha Joana – nº1
Maio 23, 2008
A minha Joana não usa a letra “b”. Só por engano.
Na escola nunca percebeu a diferença. Para a minha Joana boar ou voar, boi ou voi é tudo igual.
Dizem que “os do Porto” não sabem dizer os “v”.
A minha Joana não quer que façam troça dela por ser do Porto.
A minha Joana diz tudo em “v”
“Queres que te avra a marquise para ires jogar à vola?”
Assim ninguém acha que a minha Joana fala “à Porto”, mas às vezes lá lhe sai um “b” e fica atrapalhada.
Pobreza
Maio 23, 2008
Na sequência da entrevista do coordenador do estudo “Um Olhar Sobre a Pobreza”, Alfredo Bruto da Costa, ao jornal “O Público” – 23.05.2008
Abri à pouco tempo uma pequena empresa, trabalhava sozinho, era contabilista, vendedor, homem de entregas e empregado de armazém. Pensei em arranjar alguém para me ajudar. Um comercial, que fosse visitar alguns clientes e fizesse as suas entregas, como eu vinha a fazer, até então.
Encontrei uma pessoa que conheço à muito e estava desempregada, fiz-lhe então a proposta. O salário era ao principio baixo e por objectivos, dado que eu ganho pouco mais do que o salário minimo, 500€, e ainda não posso pagar como gostaria. Ao fim de dois meses essa pessoa desapareceu, não disse mais nada e deixou de atender o telefone.
Pus um anúncio na internet, recebi respostas e currículos. Fiz algumas entrevistas, e aí percebi coisas que nunca pensei serem reais.
Explicava a situação da empresa (inicio, pouco dinheiro, muita vontade) e quase todos me torciam o nariz, uns perguntavam se também tinham de fazer as entregas (é uma chatice), ou se também tinham de abrir novos clientes (achava que tinha escrito comercial no anúncio, se calhar esqueci-me…).
Mas havia uma pergunta que todos me faziam, com um ar desolado:
“Fixo é só isso?”
Realmente o salário fixo é pouco. Mas as comissões são boas. A trabalhar com algum esforço e vontade, tinha calculado uma média relativamente fácil de 600€ mensais.
Concluo daqui, que ou tive muito azar nos currículos que recebi, ou que ninguém quer depender do seu trabalho. E isto é Pobre.
A pobreza em muitos casos era evitada se não estivesse entranhada no espírito dos pobres.